“01/09. Tinha começado o meu mês favorito. Não, não era o mês do meu aniversário nem o mês que aconteceu algo significativo na minha vida. Era só um mês. Um mês que as coisas geralmente dão certo. Setembro. Todo dia meu despertador tocava às 06:00 da manhã, eu fazia meu café, tomava meu banho e já ia para o ponto pegar o 363. Pegava meu ipod, e ia ouvindo música para me distrair, como eu pegava o ônibus no ponto final, sempre tinha um horário certo para ele sair. 2 pontos depois, havia sempre uma garota, ela usava o uniforme de um colégio um pouco mais distante do meu. Percebi que toda vez ela segurava uma espécie de livro, ou diário, ou sei lá. Ela era linda. Ela não precisava de mais nada. Ela era linda naturalmente. E todo dia lá estava ela. Dessa vez ela sentou ao meu lado.
— Olá — ela disse
— Oi — Demorei para compreender que ela realmente tinha falado comigo, mas enfim.
— Percebi que todos os dias a gente pega o mesmo onibus e você estuda num colégio próximo ao meu… Desculpe a cara de pau — ela deu o primeiro sorriso.
— Faz tempo que eu queria tomar essa atitude mas não sou bom com as palavras. É um diário?
— Considerando o fato de eu escrever nele todo dia? talvez
— Hum, já vi que gosta de sarcasmos
— Eu? imagina — segundo sorriso — Seu ponto é o próximo
— Não ligo
— E prefere ficar conversando com a louca do diário?
— Então é esse o seu nome? sempre suspeitei — sorri
— É, mas se quiser pode me chamar de Lívia.
— Ah então você realmente tem um nome
— É, o pessoal do cartório achou que não ia ficar muito legal “A Louca do Diário”
— Sarcasmos e mais sarcasmos
— Você gosta. — É, e eu realmente tava começando a gostar. “O que está ouvindo?” — Ela perguntou e então percebi que não tinha tirado os fones.— “Ed Sheeran, conhece?” “Já ouvi algumas dele. Qual que está ouvindo?” “Cold Coffe, sabe? She’s like cold coffe in the morning…I’m drunk off last night’s whiskey and coke — Eu cantei pra ela. E percebi que aquilo parecia até nossa trilha sonora. — “Ouvi algumas vezes, é uma música muito bonita” “É, realmente é…” Já tinha passado dois pontos, mas eu não ligava, poderia ficar conversando com ela até amanhã.
— Bom, eu preciso ir agora, nos vemos amanhã?
— Claro, boa aula… Desculpa, você não me disse seu nome.
— Pedro
— Boa aula Pedro — Terceiro sorriso.
Cheguei atrasado e ainda por cima quase não deixaram eu entrar na escola. Mas eu não estava ligando. Devo admitir que não prestei atenção em absolutamente nada que foi dado na aula. Pra falar a verdade tudo que escrevi no meu caderno foram assuntos que eu poderia puxar amanhã com Lívia. Voltei para casa e ela não saía da minha cabeça. Cara. Ela realmente não saía da minha cabeça.
02/09 06:00 am. Tomei meu banho e coloquei meu melhor perfume. Peguei o 363 e dois pontos depois lá estava Lívia subindo no ônibus. Me pergunto por quê esse coração tá batendo tão forte. Coisa de doido.
— Bom dia para a Louca do Diário
— Bom dia para o garoto Ed Sheeran — quarto sorriso.
— Trouxe uma coisa pra você — Era o meu CD do Ed — Ouve a música 12 e depois me diga o que acha, preciso ir agora, meu ponto está perto, não esquece de ouvi-la. Música 12. — Fui me distanciando, dei sinal e quando desci do ônibus me aproximei de sua janela com o ônibus ainda parado e gritei “O nome é Give me Love, espero que goste.”
Quinto sorriso.
Ela me deu o quinto sorriso.
Eu sorri de volta, mas sorri porque percebi que estava perdido.
Pensei nela a aula toda. O dia todo.
03/09 Chegou o dia seguinte, sentei no meu banco de sempre do 363 e dois pontos depois lá estava Lívia, mas dessa vez sem o diário. E apenas com o meu CD na mão e um livro que parecia ser de literatura.
— O que é da Louca do Diário sem o seu diário?
— Ela se transforma na Lívia
— Gosto de ambas
— Não diga como se a Louca do Diário e Lívia fossem duas pessoas diferentes
— Então gosto ao quadrado
— O que isso significa
— Interprete como quiser. — Tinha que mudar de assunto. — Então, ouviu a música?
— Ouvi. Ouvi de novo, e de novo, e de novo, e agora ela não sai da minha cabeça
— Que bom que gostou então, mas me diz, por que não trouxe seu diário hoje?
— Talvez porque não seja necessário — Ela desviou.— O que quis me dizer com aquela música?
— Nada, só é uma música linda, acho que é direito de todos ouvi-la pelo menos uma vez na vida
—Bullshit, me diz, por que queria que eu ouvisse
— Por nada ué
— O-k.
— Você é fria, dizem que uma garota se torna assim depois de ter sido muito magoada.
— Não fale como se conhecesse
— Conheço a louca do diário
— Mas não conhece a Lívia.
— Isso porque ela ainda não me deu uma oportunidade
— Seu ponto é o próximo. — Ela encarou. — Vai se atrasar de novo.
— Não ligo. — Sorri — Me diz, qual matéria está aprendendo em Literatura?
— Shakespeare.
— “Devo comparar-te a um dia de verão?” — Citei. — Cara apaixonado ele era.
— Compreensível. Pena não existirem mais mulheres como citadas em seus versos
— Preciso ir, nos vemos amanhã.
Um dia Shakespeare citou “Devo comparar-te a um dia de verão?” mas Lívia era mais fria do que uma manhã de Inverno.
De repente percebi que ela não tinha sorrido.
Sem sorrisos.
Sem um se quer.
Nem de leve, nem de canto. Nenhum sorriso.
04/09. A mesma rotina de sempre. Porém, dessa vez não vi Lívia. Dessa vez não tinha nem Lívia, nem seu diário, nem sua voz, nem sua risada. 04/09 estava fora do contexto de um dia bom.
05/09. Sem Lívia novamente. Era difícil as coisas darem errado em dois dias seguidos de setembro.
e então passou 6, 7, 8, 9, 10.
E nada de Lívia.
Porque a vida é assim não é… Enquanto você não conhece uma pessoa, está tudo bem, aí ela vem e ensina a você a não viver sem ela, e de repente vai embora, e esquece de te ensinar a acostumar com a sua ausência.
24/09. Ela subiu no ônibus. Não dei oi e nem ao menos sorri.
Lá estava Lívia subindo no ônibus. Estava linda. Como sempre. Cabelos soltos, uniforme passado, seu diário na mão e eu podia sentir o aroma do seu perfume lá de trás. Só queria entender o por quê dela estar de mão dada com um sujeito forte e moleque daqueles.
E então ela passou e nem ao menos me cumprimentou
É, ela realmente era como um dia de inverno. Daquele de que dava vontade de ficar debaixo de edredom pra sempre assistindo filme romântico abraçados e dando pipoca na boca do outro.
Passei a odiar Setembro, nunca mais peguei o 363 e neguei tudo o que Shakespeare um dia disso a respeito de uma mulher, mas pelo menos posso dizer aos outros que conheci a garota que ele tanto falava em seus versos, e foram necessários apenas 5 sorrisos para eu me apaixonar por ela.
“Sabe, cara, eu tenho que confessar que quando eu mandei ela embora, eu fiquei esperando ela voltar. Eu fiquei exatos 145 dias esperando uma ligação, uma mensagem, até um sinal de fumaça eu tava aceitando. Eu lembro que a última vez que eu a vi, ela vestia uma calça jeans e uma blusa rosa que deixava ela mais linda do que se ela estivesse de vestido e salto alto. Eu sempre gostei disso nela, dessa coisa dela parecer mais bonita que todo mundo mesmo que tivesse de pijama e maquiagem borrada. Ela tem uma coisa diferente, sabe? Ela não é como as outras, ela gosta de rock mas eu lembro que ela sabia a letra inteirinha de uma musica do Restart. Ela vestia roupas curtas, mas ela ficava estranhamente inocente com essas roupas, parecia uma daquelas atrizes adolescentes de novela das oito. Ela era tão minha, só de olhar para ela eu sabia que ela era minha… Era… Não é mais porque eu achei que a vida com ela seria monótona demais, sei lá, achei que não ia dar certo porque a gente dava certo demais, e eu fiquei com medo de em algum momento ela ir embora e me deixar. E eu era desse tipo mesmo, que ligava pra quem terminava e pra quem era o mais forte e o mais inteligente, mas ela não sabia disso, ela nunca soube dessas minhas competições internas e mesmo assim sempre pareceu frágil demais, inocente demais. Ela me beijava com vontade de beijar o resto da vida, eu sentia isso, cara, eu sentia que ela gostava de mim como nenhuma outra garota nunca gostou. Ela se aninhava nos meus braços com uma facilidade tão incrível que parecia que ela tinha nascido para ficar escondidinha dentro do meu abraço. 145 dias e eu não consigo esquecer o jeito que ela olhava pra mim, como se eu fosse o melhor cara do mundo, como se eu valesse a pena e ela estivesse disposta a tudo por mim. Eu tinha aquela garota na palma da minha mão, eu poderia trair, brincar, até gritar, que ela ficaria comigo porque sempre soube que eu precisava dela, embora não falasse, ela sabia que eu já não imaginava um jeito de ficar longe dela. Mas se ela sabia, por que ela me deixou? Eu sei que a mandei embora, mas era pra ela ter ficado, cara. Só que ela foi embora, e levou tudo com ela, as calcinhas que ela pendurava sob o box e as camisetas que ela guardava na minha gaveta de meia. Levou aquele beijo, aquela voz gostosa e se levou de mim rápido demais. Eu fui um canalha, um babaca, um otário e outras essas coisas que ela me disse quando foi embora e deu aquele gritinho agudo dizendo que ela nunca deveria ter me conhecido. Na hora eu não senti nada, sei lá, fiquei olhando pra ela e deixei ela ir embora, mas depois, depois quando eu olhei pro box e não vi a calcinha dela lá, eu senti que tinha feito merda e que já era tarde demais, que eu tinha sido o cara mais burro do mundo e tinha perdido a única garota que gostou de mim mesmo eu dando motivos pra não gostar. Ela assistia futebol, ia à finais de campeonato comigo, ela torcia comigo, ela amava andar pela casa só de calcinha e sutiã, ela fazia uma massagem que só ela sabe fazer, ela não brigava comigo quando eu sumia e muito menos reclamava quando eu passava uma semana sem dar sequer um telefonema. Ela gostava de mim, ela me amava, não amava? Agora me diz porque eu mandei ela embora. Eu tinha a garota perfeita, a namorada perfeita, a mulher perfeita, e poderia ter pro resto da vida se quisesse. Mas eu mandei ela embora e ela não me liga mais. Ela sai com os amigos e dizem que ela está feliz. Ela encontrou alguém melhor do que eu. Ela está bem, não está? Então por que eu não estou? Nesses 145 dias eu senti a falta dela. E hoje no 146° dia, eu sinto a falta dela pra caralho.